AMPLIAÇÃO FINAL! (com análise detalhada do segundo disco de estúdio do Ira! e cinco vídeos clássicos da banda, mais o novo disco do MERDALLICA e a indicação do blog ao Prêmio Dynamite de Música Independente 2016) – Agosto, o mês do cachorro louco, também marca os trinta anos do lançamento de outro mega clássico da história do rock brasileiro: “Vivendo e não aprendendo”, do Ira!, que é relembrado neste post especial em análise detalhada, acompanhada de entrevista EXCLUSIVA com André Jung (ex-baterista do grupo paulista) e também de lembranças zappers da época, incluindo nelas um capítulo INÉDITO do livro “Escadaria para o inferno”, que narra um encontro nos anos 90’ movido a cocaine, entre o vocalista Nasi e o jornalista rocker eternamente loker; o novo disco do Cachorro Grande (e que a banda lança com show neste finde na capital paulista) e mais isso e aquilo tudo, sempre no blog campeão quando o papo é cultura pop e rock alternativo (postão TOTAL CONCLUÍDO, em 19/8/2016)

IMAGEMIRACLASSICO

Há trinta anos (em agosto de 1986) o quarteto paulistano Ira! (acima, em sua formação clássica) lançava a obra-prima “Vivendo e não aprendendo”, que é analisada em detalhes neste postão do blog zapper; abaixo Zap’n’roll entrevista a banda no final de 2000’, na sede da extinta gravadora Abril Music, em São Paulo

FINATTIIRA200OII

BANNERVOICEMUSIC2016

BANNERGUTO16

BANNERSARAHSANCA

**********

FINALIZANDO O POSTÃO: O FIM DAS OLIM-PIADAS, ERUNDINA BARRADA NO DEBATE, O NOVO DISCO DO MERDALLICA E O BLOGÃO ZAPPER TOTAL BOMBATOR NESTE POSTÃO (MAIS DE 400 LIKES!) CONCORRENDO AO PRÊMIO DYNAMITE

  • Yep, postão finalmente chegando ao fim, néan. E ele chega chegando ao seu final, com mais de quatrocentas curtidas em redes sociais (isso mesmo, você não leu errado). Enquanto isso, os blogs concorrentes… tadinho deles com seus micro posts diários com ZERO likes em cada um, hihi.

 

  • Fora que agora é oficial: a Zap’n’roll, após treze anos no ar, está finalmente concorrendo ao Prêmio Dynamite de Música Independente 2016, na categoria “melhor blog”. Trata-se “apenas” de uma das maiores premiações da cena independente nacional, já sendo entregue há catorze anos. Quer votar na gente? Vai aqui: http://www.premiodynamite.com.br/.

 

  • E agora que o pão e circo (leia-se: olim-PIADAS) no país total vira lata (o Brasil, claro) está chegando ao fim e os ufanistas otários esperneiam histericamente por causa de mixurucas menos de vinte medalhinhas conquistadas, vamos acordar pro choque de realidade: desemprego na casa dos 13% (o maior número da história da economia brasileira), mais de doze milhões de pessoas desempregadas. E aí? FORA TEMER!

 

  • Ah, sim: não se esquecendo que semana que vem começa o julgamento da Dilma.

 

  • A véia e ótima Luiza Erundina (a candidata do blog à prefeitura de Sampa este ano; pra vereador: André Pomba, claro!) está BARRADA nos debates eleitorais que começam a partir da próxima semana (o primeiro rola na Band, nessa segunda-feira). O motivo: ela teve sua participação VETADA pelos escrotos candidatos do PSDBosta, do PMDBosta e do Solidariedade, com base na nova lei eleitoral vigente, que pode não aceitar candidatos em debates de partidos com menos de nove deputados  no Congresso, em Brasília (o Psol, partido de Erundina, tem apenas seis deputados). Óbvio que ela poderia participar se houvesse acordo nesse sentido (o PT não se opôs que ela fosse ao debate), mas é claro que a BANDIDADA política com o cu na mão preferiu barrar a candidata que está em terceiro lugar nas pesquisas, com cerca de 10% das intenções de voto. Esse país é mesmo uma VER GO NHA.

 

  • Por fim: o velhão e cuzão Merdallica anunciou novo disco de estúdio (álbum duplo) para 18 de novembro deste ano. Vai ser o primeiro disco total inédito da banda em pelo menos oito anos. E pra antecipar o lançamento o quarteto divulgou a faixa “Hardwired”, cujo vídeo você pode conferir aí embaixo. É talvez a música mais porrada que o grupo gravou nos últimos vinte e cino anos. Mas isso não muda a opinião destas linhas rockers lokers sobre o conjunto: um bando de tiozões escrotos e miliardários, querendo pagar de barulhentos e malvados para atrair uma nova geração de ouvintes. Não vai funcionar: uma ver MERDALLICA, merdallica forever!

METALLICARIRLIVE2013

O Merdallica (acima) vai lançar finalmente dsco novo e antecipou uma amostra do que vem por aí (abaixo): bando de velhotes cuzões metidos a malvados

 

  • É isso. Fim do postão, sendo que semana que vem ele volta total inédito por aqui. Até lá!

 

**********

 

 

Há três décadas, em 1986…

O rock BR dos 80’ experimentava um de seus auges criativos. Em abril daquele ano o trio Paralamas Do Sucesso lançou seu terceiro disco de estúdio, “Selvagem?”, considerado um divisor de águas na trajetória do conjunto (pela sua impactante e precisa combinação de ritmos brasileiros e jamaicanos com o rock’n’roll). Logo em seguida Titãs e Legião Urbana também editaram outras duas obras-primas da história do rock nacional: “Cabeça Dinossauro” (dos Titãs, que saiu em junho daquele ano) e “Dois” (da Legião Urbana, que chegou às lojas de discos um mês depois). Todos eles discos essenciais e que permanecem até hoje como obras capitais do rock brasileiro. Assim como também foi e continua sendo essencial o LP “Vivendo e não aprendendo”, o segundo álbum da carreira do quarteto paulistano Ira!, e que foi lançado oficialmente no final de agosto de 1986, um ano realmente inesquecível do grande rock BR daquela década. Por sua importância e por tudo o que representou e continua representando até os dias atuais, o segundo disco do Ira! é o destaque desta Zap’n’roll que você começa a ler agora. O blog faz uma análise detalhada do trabalho e contextualiza o dito cujo em relação a época em que foi lançado, além de mostrar sua dimensão social e política dentro do então mega efervescente rock que era feito no Brasil. São portanto três décadas desde o seu lançamento e o disco ter permanecido imune ao avançar dos anos, pois pode-se escutá-lo hoje com o mesmo e imenso prazer de trinta anos atrás. É essa atemporalidade que torna álbuns como “Vivendo e não aprendendo” uma obra eterna, extemporânea e com um estofo artístico muito superior à mediocridade que se verifica nos tempos atuais na música brasileira em geral e no nosso rock em particular. Então vamos ao novo post do blog que nunca perde o pique na cultura pop e no rock alternativo. Mesmo quando o país vive clima estúpido e ufanista por causa de jogos olímpicos (enquanto isso, nas tenebrosas reuniões políticas em Brasília, o golpe contra a democracia travestido de impeachment segue seu curso implacável), mesmo com a quase completa irrelevância e o neo conservadorismo que dominam a cultura pop e o mundo no geral nos dias atuais. Mesmo com todo esse cenário adverso continuamos aqui, ao lado do nosso dileto leitorado (seja ele jovem ou já coroa), para lembrar a ele que a humanidade já foi menos careta e muito mais criativa, nos tempos em que eram lançados discos como “Vivendo e não aprendendo”, do gigante Ira!

 

  • Bora lá! Sextona (leia-se hoje) e com ela chega o novo postão zapper. E no dia da abertura do jogos olímpicos do Rio de Janeiro. Na boa? Estas linhas online não agüentam mais ouvir falar de Olimpíada. Que ela e a “Grobo” se fodam (e enquanto isso e enquanto o país vive o clima olímpico ufanista, o golpe contra a democracia travestido de impeachment avança no senado).

 

 

  • O blog também não tá nem aí pra porra do Pokémon Go. Mais uma idiotice gigante pra distrair a massa de manobra imbecil. E com um bônus: os larápios farão a festa nas ruas, ROUBANDO os celulares dos trouxas e distraídos que estiverem exibindo seus smartphones enquanto jogam essa droga.

 

 

  • Vander Lee? Não desejamos a morte de ninguém e que ele descanse em paz. Mas na real? Era músico, compositor e letrista de terceiro escalão, tanto que nunca soltou disco por nenhum selo realmente importante. Fora que boa parte do cancioneiro composto por ele era bem brega. Assim, a morte dele não nos falou ao pau. Mas como nesses tempos de internet fútil e imbecil qualquer um se transforma em sub-celebridade quando bate as botas…

 

 

  • Libertines em Sampa: a grande notícia do dia. Ainda que a gig dos ingleses vá INFELIZMENTE acontecer dentro do MERCENÁRIO Popload Festival, dia 8 de outubro. Mercenário mesmo: há no evento a famigerada pista Premium (que sempre foi tão combatida por um dos organizadores do festival, o prezado jornalista vira-casaca Lucio Ribeiro), cujo valor do ingresso chega a 500 temers. E ainda há ingresso em camarote, que chega a custar absurdos 700 mangos. Tudo bem, vai ter Wilco também e tals, mas com o país no buraco em que está, é uma SACANAGEM sem tamanho negociar tickets por esse valor abjetamente extorsivo. Se o blog vai? Bien, Finaski assistiu a banda em 2004 no finado Free Jazz Festival. E sem Pete Doherty (que tinha acabado de sair do grupo). Foi um show beeeeem meia-boca. Agora, com Pete novamente ao lado de Carl Barat e a bordo de um disquinho bacana (o que eles lançaram no ano passado), a parada deverá ser mais interessante. Então vamos fazer um esforço e ir, COMPRANDO nosso ingresso e COLABORANDO para que mr. LR e sua sócia (a mala Paola Wescher) fiquem um pouquinho mais ricos.

IMAGEMLIBERTINESGLASTO201II

Carl Barat e Pete Doherty, dos Libertines: finalmente juntos e ao vivo em São Paulo em outubro próximo; pena que o preço dos ingressos pra ver o show seja um assalto ao bolso…

 

  • CACHORRO GRANDE NA ÁREA COM SHOW E DISCO NOVO – Yes! O já veterano quinteto gaúcho (que foi formado em Porto Alegre em 1999, e que fixou residência em Sampalândia já há muitos anos) integrado por Beto Bruno (vocais), Marcelo Gross (guitarras), Rodolfo Krieger (baixo), Gabriel Boizinho (bateria) e Pedro Pelotas (teclados) acabou de lançar esta semana seu oitavo álbum de estúdio. “Electromod”, o disco em questão, foi produzido pelo também gaucho rocker e lenda Edú K (o homem que inventou a banda DeFalla), e a sonoridade do mesmo trafega entre o rock’n’roll básico e classudo de guitarras e ambiências mais eletrônicas, em um mix que eles já haviam explorado no cd anterior (Costa do Marfim”, editado em 2014). A faixa-título título (uma porrada sonora com letra de teor político e contestatório) já circula bem em plataformas na web e a Cachorrada (todos diletos chapas destas linhas rockers virtuais) faz showzão de lançamento do trabalho HOJE, sexta-feira, lá no Cine Jóia (colado no metrô Liberdade, região central da capital paulista), em noitada rock’n’roll que ainda vai ter participação do grande Autoramas. O blog vai estar por lá e ainda vai falar novamente por aqui do novo álbum da turma, sendo que você conferir o dito cujo na íntegra aí embaixo.

IMAGEMCACHORROGRANDE16

O quinteto rocker gaúcho Cachorro Grande (acima) está de volta e lança seu oitavo álbum de estúdio, que pode ser ouvido aí embaixo; a banda toca hoje à noite na capital paulista, para lançar o trabalho; abaixo o vocalista Beto Bruno ao lado de Zap’n’roll, durante a Virada Cultural de 2015

FINATTIBETOBRUNO2015

 

  • Sendo que “Electromod” recolou os Cachorros na mídia novamente. A banda até estampou a capa do caderno Ilustrada, da FolhaSP, esta semana. Pena que o autor da matéria é um jornalista mega conhecido pela sua preguiça e por ser um autêntico porcão e lambão de plantão. Mas o quinteto gaúcho mereceu o espaço editorial que lhe foi dado, sem dúvida.
  • Assim como o ainda gigante Ira! continua merecendo todas as atenções do mundo também. “Vivendo e não aprendendo”, o segundo disco de estúdio do grupo paulistano e uma das obras-primas do rock BR dos 80’, completa este mês trinta anos de existência. Então é dele que nos ocupamos a partir de agora neste post, analisando o álbum em si e trazendo uma entrevista EXCLUSIVA com o ex-baterista do conjunto, André Jung, que relembra fatos daquela época inesquecível do rock’n’roll no Brasil. Vai lendo aí embaixo.

 

 

 

AGOSTO DE 1986 – O IRA! LANÇAVA “VIVENDO E NÃO APRENDENDO”, OUTRO CLÁSSICO DA HISTÓRIA DO ROCK BR

Os meses entre abril e agosto de 1986 foram capitais para a história do rock brasileiro dos anos 80’. Foi nesse período exato que foram lançadas quatro das principais obras do rock BR dos 80’: “Selvagem?”, terceiro trabalho de estúdio dos Paralamas Do Sucesso, saiu em abril; logo depois chegava às lojas (em junho) “Cabeça Dinossauro”, o álbum que levou os Titãs ao mega estrelato. Um mês depois (em julho) era a vez de “Dois”, da Legião Urbana, invadir as lojas e rádios, vendendo em pouco tempo a inacreditável marca de seicentas mil cópias. E por fim, em agosto (mais especificamente no dia 25), o quarteto paulistano Ira! também surgia com o seu segundo trabalho de inédias, “Vivendo e não aprendendo”.

Era a prova de fogo do grupo formado pelo extraordinário guitarrista e vocalista Edgard Scandurra, pelo vocalista Marcos “Nasi” Valadão, pelo baixista Ricardo Gaspa e pelo baterista André Jung. Antes desse LP o conjunto havia lançado, pela mesma gravadora Wea, um compacto em 1983 (com as faixas “Pobre Paulista” e “Gritos na multidão”) e, dois anos depois, estreou em álbum completo com “Mudança de comportamento”. O compacto vendeu timidamente e teve pouca execução em rádio. Situação que melhorou um pouco com o primeiro disco cheio e que além de possuir um ótimo repertório, ainda trouxe já algumas faixas bastante radiofônicas – como “Longe de tudo”, “Núcleo Base” e a tristonha e belíssima balada “Tolices”. Mas ainda não era o suficiente para a gravadora que, após os estouros dos álbuns dos Titãs e do Ultraje A Rigor (um ano antes, em 1985, com “Nós vamos invadir sua praia”, que também emplacou uma renca de hits nas fms e vendeu horrores), apostava no Ira! como sendo a bola da vez de seu cast rocker.

A banda, formada em 1981 pelos amigos de adolescência Edgard e Nasi, estreou naquele mesmo ano em um festival punk no teatro Tuca, mantido pela PUC paulista (numa gig a qual o autor deste blog esteve presente, em um episódio que ele descreve em detalhes mais aí embaixo, narrando também outras histórias saborosas e bizarras, vividas com a turma do grupo). Com forte influência do punkismo inglês dos 80’ e também do rock de garagem dos sixties, o Ira! tinha na figura do guitarrista Edgard Scandurra o seu ponto alto: canhoto e tocando sem inverter as cordas, ele iria se tornar nos anos seguintes um dos cinco melhores guitarristas de toda a música brasileira, além de ser compositor dos principais hits do grupo. Então juntou-se a ele um vocalista poderoso e sempre com cara de “enfezado”, além de uma seção rítmica igualmente poderosa (formada por Gaspa e Jung) e estava pronta a receita para o estouro de mais um grande grupo paulistano dos anos 80’. Era apenas questão de tempo para o Ira! chegar lá.

E esse “chegar lá” aconteceu justamente com o lançamento de “Vivendo e não aprendendo”. Era um disco que, como o próprio André Jung comenta na entrevista concedida ao blogão zapper, possuía um repertório com uma força descomunal. Ia de rocks empolgantes como “Envelheço na cidade” (que se tornou um dos muitos hinos do grupo e que é cantada até hoje nos shows em côro pelo público) a faixas de eflúvios punkster (caso de “Nas ruas”, cantada por Scandurra) e passando ainda por outras que mostravam uma sonoridade à frente de seu tempo (como “Vitrine Viva” que mixava rock de guitarras com uma levada hip hop). Porém o que tornou o disco conhecido nacionalmente e fez suas vendas dispararem foi a inclusão da canção “Flores em você” (novamente uma linda balada, e com um magnífico arrnajo de cordas) como tema de abertura da novela daquela época do horário nobre da TV Globo. Em pouco tempo o LP vendeu cerca de duzentos mil cópias e o Ira! se tornou a nova estrela do primeiro escalão do rock paulista e brasileiro.

CAPAIRA1986II

“Vivendo e não aprendendo”, o segundo álbum de estúdio do quarteto paulista Ira!, lançado em 25 de agosto de 1986: outro clássico gigante da história do rock BR

Daí em diante são mais de duas décadas de estrada onde aconteceu de tudo no percurso deles. Discos novamente excepcionais e com a música à frente do seu tempo (como “Psicoacústica”, editado em 1988) mas que não repetiram o êxito comercial do segundo álbum, trabalhos de ótima qualidade mas totalmente subestimados e ignorados pela mídia e pelo público (e aí os exemplos são “Clandestino”, de 1990, e “Os Meninos da Rua Paulo”, lançado um ano depois), que já estava ficando interessado em novas tendências musicais mais popularescas (como axé, pagode e música sertaneja) e assim por diante. De repente o Ira! se viu ficando obsoleto e extemporâneo no coração dos fãs e do consumidor de música. Continuava fazendo gigs demolidoras mas as vendas minguavam cada vez mais. O resultado foi a saída do conjunto do cast da Wea com o derradeiro disco editado pelo selo, “Música calma para pessoas nervosas” (de 1993). Daí em diante o quarteto perambulou por selos menores, ainda lançou um grande disco (“Isso É Amor”, apenas com covers, editado em 1999 e que foi muito bem recebido pela crítica) e quando estava à beira do abismo foi salvo pela MTV com a gravação e lançamento do “Acústico Ira!”, em 2004. Revisitando seu repertório em formato não elétrico e contando com participações especiais da nova geração rocker que despontava no país (como a cantora Pitty e o vocalista do grupo mineiro Skank, Samuel Rosa), o Ira! se reencontrou com o público e com o sucesso: o cd vendeu mais de trezentas mil cópias e recolou o quarteto no pódio dos ainda grandes vendedores do rock nacional.

Mas não por muito tempo: após lançar mais um álbum de estúdio (“Invisível Dj”, em 2007) e que teve vendagem novamente pífia, um abalo interno fez com com que o Ira! decretasse o seu fim: o vocalista Nasi entrou em briga feroz e pública com seu irmão, Ayrton Valadão Jr, que era o empresário do conjunto. Nasi abandonou a banda em meio a uma turnê, a briga dos irmãos ganhou as manchetes até no “Fantástico” da TV Globo e se encerrou então a primeira trajetória do quarteto, com sua formação clássica.

Cinco anos depois, em 2012, Nasi e Jr. voltaram a se entender. Fizeram as pazes e anunciaram que o Ira! estava retomando as atividades. Novamente com Scandurra na guitarras mas… para surpresa dos velhos fãs, sem André Jung na bateria e Gaspa no baixo, com a parte rítmica sendo ocupada por músicos convidados. A volta aos palcos enfim aconteceu na Virada Cultural da capital paulista em maio de 2014, diante de uma multidão de mais de vinte mil pessoas. E de lá para cá o grupo permanece na estrada, fazendo shows mas sem ainda anunciar algum material inédito.

Então “Vivendo e não aprendendo”, lançado há exatos trinta anos, permanece como um marco na trajetória do Ira! Um LP de um tempo em que rock’n’roll significava corpo, alma, coração, entrega total. Um trabalho cujo repertório altamente politizado encantou toda uma geração, influenciou outras bandas e entrou para a história do rock brasileiro, ao lado de alguns outros igualmente poucos gigantes. E nos tempos atuais, onde o horror cultural pop domina a molecada sem cérebro com hits como “Metralhadora” e “Tá tranqüilo, tá favorável”, é ótimo saber que o rock brasileiro já foi incrível e que já existiram bandas como o Ira! e um disco como “Vivendo e não aprendendo”. Igual a ele, nunca mais.

 

 

O TRACK LIST DE “VIVENDO E NÃO APRENDENDO”

1.”Envelheço Na Cidade”

2.”Casa De Papel”

3.”Dias de Luta”

4.”Tanto Quanto Eu”

5.”Vitrine Viva”

6.”Flores Em Você”

7.”Quinze Anos (Vivendo E Não Aprendendo)”

8.”Nas Ruas”

9.”Gritos Na Multidão”

10.”Pobre Paulista”

 

 

IRA! AÍ EMBAIXO

Em uma série de vídeos clássicos para músicas idem: “Envelheço na cidade”, “Flores em você”, “Flerte fatal” e, de quebra, o álbum “Vivendo e não aprendendo” para audição na íntegra e ainda a gravação completa do “Acústico MTV – Ira!”, lançado em 2004.

 

 

ENTREVISTA EXCLUSIVA – O EX-BATERA DO IRA! FALA AO BLOG: “A VOLTA DA BANDA É UM VILIPÊNDIO!”

André Jungmann Pinto, recifense de nascença e radicado na capital paulista desde sua infância, está com cinqüenta e cinco anos de idade. Destes dedicou pelo menos vinte e sete a tocar bateria no Ira!, onde entrou logo no início da carreira da banda em substituição ao baterista original Charles Gavin (que acabou se fixando nos Titãs). De 1983 (quando o quarteto lançou seu primeiro compacto) a 2007 (ano em que saiu o derradeiro trabalho de estúdio do grupo, “Invisível DJ”), foi André Jung quem comandou as baquetas do conjunto, em estúdio e ao vivo. Uma longa trajetória e que teve participação essencial na criação de discos clássicos como “Mudança de comportamento” (1985), “Vivendo e não aprendendo” (1986) e “Psicoacústica” (1988).

Por isso mesmo boa parte dos fãs estranhou muito quando o Ira! anunciou seu retorno em 2012 (após ficar parado durante cinco anos) mas tendo apenas o guitarrista Edgard Scandurra e o vocalista Nasi de sua formação clássica, e sem Jung na bateria e Ricardo Gaspa no baixo. Os motivos pelos quais a dupla da seção rítmica original não está no line up atual do Ira! nunca foram muito bem esclarecidos por Scandurra e Nasi e, desta forma, Zap’n’roll não se esquivou de tocar no assunto durante esta entrevista exclusiva que o blog fez com Jung esta semana e onde ele também recordou histórias saborosas vividas durante seu período na banda, em especial na época da gravação, lançamento e turnê de divulgação do segundo LP. Foi um ótimo bate-papo, mesmo porque o autor deste espaço rocker online e o músico se conhecem pessoalmente há mais de duas décadas.

Além disso André Jung segue na atividade musical. Além de ser sócio de uma marca de instrumentos de percussão, ele continua tocando em alguns projetos musicais. Mas tudo isso é assunto para a entrevista concedida ao blogão zapper, e cujos principais trechos você lê abaixo:

IMAGEMANDREJUNG16

André Jung, durante quase três décadas o baterista da formação clássica do Ira!: “de certa forma a volta da banda é um vilipêndio”

 

Zap’n’roll – “Vivendo e não aprendendo”, o segundo disco lançado pelo Ira! em agosto de 1986, já se tornou um clássico do rock BR dos anos 80’. E está completando trinta anos do seu lançamento. O que você se recorda da época em que ele foi gravado e da turnê de divulgação dele? Como foi o processo todo, a composição, registro das músicas em estúdio etc? Há alguma história divertida ou bizarra que é desconhecida dos fãs da banda?

 

André Jung – uma fase bastante intensa, tínhamos conseguido nos afirmar com o Mudança de Comportamento e estávamos seguros, com um repertório poderoso na manga, e um bom respaldo de crítica. Fui ao Rio e negociei pessoalmente com o Liminha para que ele fizesse a produção. Pouco depois, os Titãs fizeram o mesmo e acabaram por gravar o Cabeça Dinossauro logo antes do Ira! Isso gerou um mal estar que acabou por contaminar a gravação do Vivendo. Certo que não teríamos escolhido o Liminha se soubéssemos da história toda. A questão não era os Titãs, o que queríamos era uma abordagem mais íntima com nosso trabalho, e não mais uma obra “do produtor”. Então desandou. Começamos o disco no [estúdio carioca] Nas Nuvens, e terminamos no [estúdio] Transamérica, SP. Em São Paulo reunimos Peninha e Paulo Junqueiro, lambemos as feridas, e finalizamos o disco. Ainda teve o episódio de Pobre Paulista/Gritos na Multidão: a gravadora queria e insistia para que gravássemos [as duas faixas], o argumento era a baixa tiragem do compacto de estréia da banda e a importância das músicas. Pobre Paulista é aquela encrenca duvidosa mesmo [nota do blog: durante muitos anos o Ira! deixou de tocar essa música ao vivo pois parte da crítica musical julgava que sua letra possuía um teor algo racista, em função dos versos “Não quero ver mais essa gente feia/Não quero ver mais os ignorantes/Eu quero ver gente da minha terra/Eu quero ver gente do meu sangue”] , mas não queríamos gravar as músicas por duas razões. Não queríamos estabelecer comparações com a formação antiga. As músicas não representavam mais o momento da banda. Acabamos por conceder gravar, mas desde que fosse ao vivo. Assim conseguimos evitar que tivéssemos uma delas como música de trabalho do Vivendo… Leninha Brandão foi nossa tour manager, ela era muito bem relacionada e nós éramos encrenqueiros e emburrados. Como era um tempo ainda bastante primitivo no que tange aos equipamentos de som Brasil afora, exigimos viajar com som e luz, fazíamos um monte de shows e ganhávamos pouco, uma vez que nosso custo fixo era muito alto. A música [“Flores em você”] na [abertura] da novela (em horário nobre na TV Globo) nos deu reconhecimento nacional e passamos a viajar para o Norte e Centro Oeste também. Apesar do sucesso do disco, a relação com a Warner não melhorou. E pessoalmente não gosto da sonoridade desse disco e ele não me traz boas recordações. No entanto uma música em especial sempre me é comentada: Dias de Luta. Diversos bateristas profissionais que conheci me disseram que escolheram bateria por causa dessa música. Quando digo diversos é + de 10.

 

Zap – sim, a levada dela é bastante poderosa. E enfim, pelo visto todos esses problemas acabaram não influindo no resultado final do trabalho, visto que o disco é considerado um dos marcos da trajetória do Ira!

 

Jung – a força do repertório era descomunal.

 

Zap – E sobre a turnê que se seguiu ao lançamento do disco, alguma história curiosa? Eu fui naquele show na praça do Relógio, na USP, onde estavam umas vinte mil pessoas (na época falou-se em quarenta mil, mas hoje fazendo uma avaliação mais realista, acho que não chegou a esse número). Foi emocionante…

 

Jung – acho que pode ter passado de 20.000, mas 40 é muito mesmo, foi um show muito foda. Fizemos um puta evento na faixa pra geral. Botamos o Violeta de Outono e o Vultos pra abrir. Paula Toller, Renato Russo e outros vieram pra ver. Paulo Junqueiro na mesa de som, ameaça de chuva direto, aí acabaram os shows de abertura e o Gaspa nada. Os roadies afinaram e aprontaram a bagaça e o Gaspa nada. Aí quando já estava pegando a demora o Gaspa aparece pelo meio do povo, chegou subiu e foi tocar,nem viu o camarim.

 

Zap – Ahahahahahaha, e onde ele estava, afinal?

 

Jung – vacilando por aí.

 

Zap – rsrs, certo. Eu me lembro que fiquei no backstage e consegui ver parte do show na lateral do palco, em cima dele, mas a assessora de imprensa da Wea na época, a Marildinha Vieira, não me dava sossego, rsrs – sendo que eu e ela somos amigos até hoje, hehe. Bien, depois do sucesso do disco a gravadora apostou alto na banda, certo? E aí vocês voltaram dois anos depois com um disco estranhíssimo para a época, o “Psicoacústica”, que no entanto hoje também é considerado como outro marco da carreira do Ira! e cuja sonoridade estava muito à frente do tempo em que ele foi lançado. Mas ele vendeu bem menos do que o “Vivendo…”, né?

 

Jung – muito menos, foi uma ducha fria na gravadora. Havia um consenso que depois de Ultraje e Titãs era a vez do Ira! estourar a boca do balão.

 

Zap – E como vocês lidaram com essa situação? Por que, na sua opinião, o disco vendeu muito menos que o anterior? Vocês quiseram mesmo que “Psicoacústica” tivesse aquela sonoridade mais complexa e não tão comercial e radiofônica?

 

Jung – nós não queríamos fazer esse papel, não éramos mainstream o suficiente para lidar com a farofada geral, também tínhamos nossa própria dinâmica interna. A via Mod estava esgotada, eu e o vocalista só ouvíamos hip-hop, que entendíamos ser o “new” punk. Edgard ainda estava bastante preso ao modelo sixties e com essa dicotomia instalada entramos em estúdio e gravamos um disco conceitual, auto-produzido, experimental e democrático, que vendeu pouco e fez história.

 

Zap – E daí para a frente, infelizmente, é o que todos nós sabemos: o Ira! entrou em curva descendente e, embora tenha lançado ainda ótimos discos (como “Meninos da Rua Paulo”, de 1991, um dos trabalhos mais subestimados da banda na minha modesta opinião), nunca mais conseguiu obter vendagens expressivas. Algo que só foi mudar com o lançamento do “Acústico MTV” em 2004, quando o grupo novamente se reencontrou com o grande público e voltou a vender muitos discos. Desta forma, quais as lembranças que você tem desse longo período de “baixa” em termos comerciais para o grupo, e que durou mais ou menos de 1990 até o ressurgimento midiático e de vendas em 2004?

 

Jung – a volta foi progressiva, começou com Isso é Amor, um disco lindo de versões. Esse disco nos colocou de volta no radar, depois fizemos o “Ao Vivo MTV”, que deu disco de ouro, fizemos o Rock’n Rio com muito sucesso e quando fizemos o Acústico foi consagração.

 

Zap – Sim, claro. Me recordo que, mesmo não vendendo muito, o grupo nunca deixou de fazer shows e estes sempre lotavam. No entanto, após o novo mega sucesso comercial com o “Acústico” e a turnê que se seguiu a ele, vocês novamente lançaram mais dois trabalhos que não obtiveram vendas expressivas. E finalmente houve o “racha” entre Nasi e seu irmão (que era empresário da banda), pondo fim ao Ira! O que você tem a dizer desse período?

 

Jung – o sucesso subiu a cabeça. Muitas solicitações, bajulações, tapinha nas costas e mão na maçaneta, aí nego começa a se achar. Foram tempos em que não existia mais o espírito, gravamos um disco apenas depois, Invisível DJ. Com boas idéias, num corpo sem alma.

 

Zap – Verdade, “Entre seus rins” foi lançado em 2001. E “Invisível DJ” não teve repercussão alguma. Veio a briga entre os irmãos Valadão e o fim do quarteto. Um episódio bastante explorado midiaticamente na época. Mesmo assim, com toda a imprensa noticiando o fato, há algo relacionado a essa briga que não chegou ao conhecimento do público e que você, ainda baterista da banda, tenha guardado em segredo esses anos todos?

 

Jung – cara, o final do Ira! foi muito sofrido para mim, para quem vê de fora as coisas são movidas pelas aparências, dividíamos papéis numa equação construída por convivência, limitações e qualidades de cada um. Grande público, mídia, querem espetáculo, e no fundo o problema é íntimo, não é porque alguém está promovendo agressões com estardalhaço que a real dimensão de uma ruptura como essa é percebida, ela é íntima, então desde o final do Ira! fui tirando o Ira! de mim e hoje sou grato ao destino. Demorou para que eu conseguisse ouvir uma música do Ira!, hoje às vezes escuto um disco inteiro. Foram muitos e não lembro direito, me dá uma boa sensação. Dever cumprido.

 

Zap – o que nos leva ao momento presente, com a volta da banda mas apenas com Nasi e Edgard Scandurra da formação clássica, e sem você e o baixista Gaspa. O que você, como ex-integrante do conjunto, tem a dizer sobre a volta dele? Por que você e Gaspa não foram incluídos nesse comeback, afinal?

 

Jung – não falo pelo Gaspa, não sei o que rolou com ele. Edgard me sondou e eu não tive interesse em tentar. Acho que esse projeto, (acho que é um projeto), poderia se chamar Ira, como a banda foi batizada em sua fase inicial, ou mesmo fazer com Page & Plant,

Zap – por que não teve? Você provavelmente estaria ganhando um ótimo dinheiro agora, rsrs.

 

Jung – dinheiro? Minha banda era a mais foda que tinha, porque o assunto não era dinheiro. Entre outras qualidades eu fui Ira! de corpo e alma.

 

Zap – com certeza. Mas você tocou bateria nela por quase três décadas. Mesmo não tendo sido o baterista original (antes de Jung, Charles Gavin, ex-Titãs, chegou a ocupar o posto no Ira!), você e Gaspa também se tornaram marca registrada do line up do quarteto. Não soa estranho a parte dos fãs que um retorno do Ira! não inclua vocês dois na formação?

 

Jung – claro que soa, de certa forma é um vilipêndio.

 

Zap – e olhando por esse aspecto, não teria sido melhor você ter aceito a “sondagem” do Scandurra e estar tocando com eles? Ou há alguma rusga entre você e a dupla de frente da banda?

 

Jung – Edgard é alguém da minha família, que hoje está distante, o outro não sei mais quem é.

 

Zap – há alguma rusga entre você e Nasi? Foi ele que não quis sua presença na volta do grupo?

 

Jung – eu nunca quis voltar pro grupo.

 

Zap – certo. Mas (e me perdoe a insistência) pela forma como você respondeu sobre Nasi, a impressão é que rolou algum desentendimento entre você e ele.

 

Jung – Humberto, essa história é antiga, já passou.

 

Zap – mas creio que os leitores gostariam de saber dela. Porém se você não quiser falar sobre, tudo bem.

 

Jung – houve muito desentendimento naquela separação, eu não fui poupado, não quero remexer no que deve ficar pra trás.

 

Zap – Ok. Buenas, já temos um ótimo material. E para encerrar, duas questões: o que você anda fazendo atualmente em termos musicais? E por fim, você tocou bateria durante quase trinta anos em uma banda que pertenceu à geração 80’, aquela que é considerada como uma das grandes gerações de toda a história do rock BR, pela importância que ela teve na questão social, política e artística e por todos os discos clássicos que foram lançados naquela época. Dessa forma como você vê o rock que é feito hoje no Brasil? Não há um abismo infinito, qualitativamente falando, entre o que já feito no rock brasileiro de ontem e de hoje?

 

Jung – acho que a geração 80 teve méritos, mas ela é super dimensionada, o rock dos 70 teve bandas incríveis. Anyway hoje o maistream está desastroso e o rock não tem força, nem apelo para furar a maçaroca de mediocridade que entope os veículos tradicionais. Hoje os anos 80’ parecem aqueles anos que não querem acabar. Depois do fim do Ira! recuperei um tesão pela música que estava submerso nas intrigas do dia a dia. Anos atrás fiz uma banda chamada F.A.U.T.

 

Zap – muito bom. E continua com ela? Parece que você se tornou sócio de uma marca conhecida de instrumentos de percussão…

 

Jung – sim, da PBR, empresa que importa a marca Pearl. Essa banda acabou, estou montado um projeto com uma rapaziada bacana e em breve mostramos algo. Também toco na Banda Performática, e nos Desconstrutores, ambos em parceria com Aguilar e Rick Villas Boas.

 

Zap – Ótimo. E pra FECHAR mesmo a entrevista, a pergunta que não pode faltar: seu álbum favorito do Ira!

 

Jung – pode falar mais de um? Mudança de Comportamento, Psicoacústica e Acústico MTV. São esses.

 

 

OS ANOS 80’ E 90’ E O BLOGGER LOKER NA VIDA LOKA, CONVIVENDO COM A TURMA DO IRA!

  • A gênese do grupo Ira! está em um colégio estadual da capital paulista, chamado Brasílio Machado. Localizado até hoje na rua Afonso Celso, no bairro da Vila Mariana (zona sul da cidade), era lá que faziam o ensino fundamental os amigos Edgard Scandurra e Marcos Valadão – futuros guitarrista e vocalista da banda. E também era lá que estudava o “pimpolho” aborrescente Finatti (uia!), na sétima série do ensino fundamental. Foi nessa época que o autor destas linhas bloggers rockers conheceu a dupla que anos depois iria formar o Ira! O ensino fundamental foi concluído por todos e cada um foi pra uma turma diferente no ensino médio. Finaski perdeu a partir daí contato com os dois e não os viu mais. Foi reencontrar a dupla em 1981, num festival punk que estava sendo realizado no teatro Tuca (da PUC/SP). Zap’n’roll era então um jovem “dirty punk” e já conhecia a banda Ira! de “ouvir falar dos caras”. Foi assistir ao show dela na PUC e levou um susto quando viu Scandurra e Marcos (agora já sendo chamado de “Nasi”) à frente do conjunto, no palco. Daí em diante não perdeu mais os passos do Ira!, que lançaria seu primeiro compacto em 1983. Três anos depois e quando o conjunto iria lançar seu clássico segundo álbum de estúdio, o zapper também estreava como jornalista profissional, na revista Rock Stars, em maio de 1986.

 

 

  • Daí em diante são três décadas de jornalismo rock’n’roll e loucuras ao som do Ira! (além de um certo convívio com a turma). O primeiro grande show da banda visto pelo jovem repórter foi aquele em que eles tocaram na praça do relógio da USP, em fins de 1986, para lançar “Vivendo e não aprendendo”. Tendo os grupos alternativos Vultos e Violeta De Outono na abertura, o Ira! arrastou uma multidão de mais de vinte mil pessoas para a gig, que foi sensacional e enfurecida. Uma tarde rocker inesquecível (e como não se faz mais hoje em dia) e que foi documentada pelo autor destas linhas online em uma matéria de quatro páginas intitulada “Rock In USP”, e publicada na edição inaugural da revista Zorra (que era especializada apenas em rock nacional e infelizmente durou apenas três edições), no início de 1987.

 

 

  • De 1988 até a metade dos anos 90’ o já então conhecido jornalista rocker (e já bem loker, por conta de seu sempre exagerado consumo de cocaine nos shows, festas e baladas noturnas que freqüentava) assistiu a zilhões de gigs do Ira! Algumas das mais memoráveis aconteceram na extinta danceteria Dama Xoc (onde o blogger maloker também cansou de ver ao vivo Barão Vermelho, 365, Inocentes e até o RPM, além de também ter presenciado shows inesquecíveis dos Ramones e dos ingleses do New Model Army), onde Zap’n’roll literalmente se jogava no chão ao som do quarteto de Edgard, Nasi, Gaspa e André. Bons tempos que não voltam mais…

 

 

  • E em 1993, quando a banda estava no final de seu contrato com a gravadora Wea, e estava lançando pelo selo o disco “Música calma para pessoas nervosas” (que vendeu menos de três mil cópias, um desastre para quem já havia conseguido disco de platina com o segundo LP), houve a célebre entrevista NÃO feita pelo repórter loki no sobrado onde morava o vocalista Nasi, no bairro de Pinheiros. Uma NÃO entrevista detonada por uma MONTANHA de pó, claro, hihihi. Mas isso está melhor explicado mais aí embaixo, onde o blog publica um capítulo inédito do livro “Escadaria para o inferno”, o que narra em detalhes a história da entrevista que acabou se transformando em samba do crioulo doido, uia!

 

 

  • O repórter Finaski seguiu acompanhando o Ira! de perto, mesmo nos períodos de baixa do conjunto. Até que houve o convite da MTV para que o grupo gravasse seu “acústico”. O disco marcou o reencontro da banda com o sucesso. E o autor destas linhas zappers esteve lá, na gravação do programa.

FINATTINASISCANDRRA2014

Zap’n’roll “cercado”por Edgard Scandurra e Nasi no camarim do Ira!, após show da banda no Audio Club/SP, no final de 2014

 

  • Veio a briga infernal entre os irmãos Valadão (Nasi e Ayrton) e o fim do Ira! Em 2012, a reconciliação e a volta, sem Gaspa e André Jung. A reestréia nos palcos aconteceu na Virada Cultural da capital paulista em 2014, no centro da cidade e diante de uma multidão de mais de vinte mil pessoas. O  blog estava lá. Assim como também esteve em mais outras duas gigs deste comeback do Ira!: em uma noite no auditório (lotado) do SESC Vila Mariana e, tempos depois, na casa noturna Audio Club. No SESC, após o final da gig, se dá o seguinte diálogo hilário entre os velhos conhecidos Finaski e Nasi (ele, munido de um copo de whisky): “estou finalizando meu livro de memórias e vou contar aquele episódio em que nos entupimos de farinha na sua casa, em 1993. Sem problema?”, pergunta o jornalista, dando um riso maroto. Nasi: “sem problema. Tudo o que eu tinhha que falar da minha vida eu também já falei no meu livro. Aliás Finatti, com QUANTOS PROCESSOS você já está nas costas?”. O blogger, espantado: “Eu??? Que eu saiba, apenas um, rsrs”.

 

 

  • Atualmente o grupo está em turnê apenas com Edgard, Nasi e Daniel (filho do guitarrista), fazendo releituras novamente acústicas do seu repertório. O título da turnê: “Ira! Folk”.

 

 

  • E muitos fãs consideram a arte da capa de “Vivendo e não aprendendo” como um dos pontos altos da trajetória do quarteto também na questão gráfica. Quem fez as pinturas para a capa do disco na época foram os artistas Dora Longo Bahia, Ana Ciça, Paulo Monteiro e Camila Trajber.

 

 

  • Quem tiver curiosidade em conhecer o projeto FAUT, do baterista André Jung, basta ir no vídeo aí embaixo.

 

EXCLUSIVO! CAPÍTULO INÉDITO DO LIVRO “ESCADARIA PARA O INFERNO”, COM AS MEMÓRIAS JUNKIES DO JORNALISTA GONZO ZAPPER, AQUI NARRANDO O DIA EM QUE ELE ENTREVISTOU O VOCALISTA NASI ASPIRANDO UMA MONTANHA DE COCAINE, UIA!

 

Capítulo 4 –“Farinhada” boa na casa do vocalista do Ira!

 

Eu sempre gostei muuuuuito do Ira! Além de sempre ter sido amigo dos caras, considero a banda mega digna e um dos grandes nomes do rock paulistano e brasileiro dos anos 80’. Fora que Egard Scandurra é um autêntico monstro das seis cordas. Se você nunca viu o sujeito debulhando sua guitarra ao vivo, em cima de um palco, ainda não viu nada. E com um detalhe: ele é canhoto, e não toca com as cordas invertidas, como Hendrix também não tocava e tal. Se juntarmos uns dez ótimos guitarristas destros, ainda assim eles não conseguirão tocar o que Edgard toca sozinho, sério.

Foi emocionante rever a banda em cima do palco, após sete anos de separação (por conta de brigas do vocalista Nasi com seu irmão, o Jr., que também era empresário do grupo, e que voltou a ser novamente agora que a paz foi selada entre eles e o conjunto finalmente voltou à ativa). Diante de um público de cerca de 30 mil pessoas, o Ira! abriu a edição 2014 da Virada Cultural da cidade de São Paulo em maio daquele ano, e causou emoção e comoção nos velhos e novos fãs ao desfilar todos aqueles clássicos inesquecíveis (“Longe de Tudo”, “Núcleo Base”, “Tolices”, “Tarde Vazia”, “Gritos na Multidão”, “Rubro Zorro”, “Flerte Fatal”, “Nas Ruas” etc, etc, etc.). Agora a banda segue em turnê, percorrendo o Brasil de Norte a Sul durante quase dois anos e fazendo mais de 200 shows.

Mas eu conheço Nasi e Scandurra pessoalmente há milênios. Presenciei o nascimento do Ira! em 1981, vi eles chegarem ao auge em 1986 (com o segundo álbum, “Vivendo e não aprendendo”, que naquela época, empurrado pela música “Flores em Você” que havia sido escolhida como tema de abertura da novela das 9 da tv Globo, vendeu quase 300 mil cópias) e também acompanhei a decadência (injusta) do quarteto (que além de Nasi e Edgard tinha o baixista Gaspa e o batera André Jung, sendo que os dois últimos não estão na formação que voltou agora aos palcos): em 1993, uma década depois de seu nascimento, o Ira! ainda fazia ótimo rock’n’roll mas sua música tinha sido “atropelada” por grupos mais novos e instigantes aos ouvidos da molecada (como Skank, Planet Hemp e Chico Science & Nação Zumbi, além dos Raimundo que logo menos também iriam estourar no país todo), além de ter sido tirado do foco da mídia, que queria saber de nojeiras ao estilo pagode de corno paulistano e axé burrão baiano.

Foi esse Ira! então (já considerado irrelevante pela indústria fonográfica e perdendo público dia a dia) que eu, com meus trinta anos de idade, colaborando com a Interview e escrevendo para a revista Dynamite, me deparei quando a gravadora Warner mandou para a jornalistada o álbum “Música calma para pessoas nervosas”, que estava saindo no final daquele ano. Era o último disco do contrato do conjunto com a gravadora, que não fez absolutamente nada por ele: mandou o suplemento obrigatório para divulgação na imprensa e sequer trabalhou alguma faixa em rádio ou televisão. O resultado foi mais do que óbvio: um fracasso total de vendas – dados oficiais da época indicaram que o disco não chegou a vender duas mil cópias. Isso para uma banda que sete anos antes havia chegado a ganhar disco duplo de ouro.

FINATTINASI2014

Nasi e Finaski, uma dupla de chapas há mais de trinta anos: “Finatti, quantos processos você já tem nas costas?”. Ahahahahaha.

Mas nem por isso o Ira! deixou de continuar merecendo minha admiração, respeito, amor e carinho. Foi então que, com o disco em mãos, eu propus uma matéria com eles para a Dyamite. Mr. André Pomba, nosso eterno “editador”, topou no ato. Eu, já velho chapa dos caras, não tive dificuldades em marcar um bate-papo com o Nasi na casa dele, numa tarde qualquer daquele mês de novembro. A redação da Dynamite naquela época ficava na rua dos Pinheiros, na zona oeste de Sampa. Nasi morava não muito longe dali, num sobrado próximo à avenida Francisco Morato e também próximo ao campus da USP. Quando eu estava pronto pra cumprir minha missão e partir rumo à casa do vocalista do Ira!, liguei pra ele pra dizer que estava indo. Nasi: “Cola aí! Ow, você consegue me trazer um baseado? Eu tô a fim de fumar e estou sem aqui em casa…”. Eu: “poutz, também tô sem. Não fumo muito, você sabe. Eu gosto mais é de dar umas narigadas, hehe”. Ele: “Verdade. Bom, vem pra cá que inclusive tenho uma surpresa pra você!”.

Eu fui. E logo que cheguei Nasi me recebeu com a simpatia de sempre, me levando pro andar de cima do sobrado. Fomos fazer a entrevista num dos quartos, onde uma pilha fantástica de discos de vinil se escorava nas paredes. E antes que eu ligasse o gravador para fazer a entrevista, ele disse: “lembra da surpresa que te falei?”. Ato contínuo puxou debaixo da cama um prato onde havia um autêntico monte Everest de cocaína. Eu olhei aquilo e não acreditei. Meu coração disparou enquanto ele esticava duas carreiras beeeeem gordas para serem aspiradas. Mandei a minha imediatamente. O pó era bonzão. A entrevista começou a ir por água abaixo exatamente ali.

Cerca de uma hora e meia depois (mais ou menos isso, meu senso de tempo e espaço àquela altura já tinha ido pra casa do caralho) nenhum dos dois se entendia mais nas perguntas e respostas, totalmente malucas e sem nexo algum. A dupla, bicudaça, também não aguentava mais cheirar. A entrevista havia se transformado em um autêntico samba do crioulo doido (fui ter certeza disso quando ouvi a fita em casa, no dia seguinte). Saí da residência de mr. Marcos Valadão (o nome real dele) quando o dia estava indo embora e a penumbra se desenhava e caía sobre os prédios e o poluído rio Pinheiros. Saí daquele sobrado parecendo um robozinho, andando como um Robocop pelas ruas do bairro. Não via a hora de chegar no centro (eu ainda morava na avenida 9 de julho, no apartamento do Felipe). E claaaaaro que não consegui aproveitar absolutamente nada do que estava gravado na fita da entrevista. Mas a matéria acabou saindo na Dynamite – em forma de resenha bem extensa do disco. Pelo menos isso, para uma banda que sempre mereceu e vai continuar merecendo muito mais do jornalista loker.

 

 

O BLOGÃO ZAPPER INDICA

  • Disco, I: “Vivendo e não aprendendo”, o clássico imbatível lançado pelo grupo Ira! em 1986.
  • Disco, II: e quando você, já sem esperança alguma, acha que o rock independente brazuca chegou ao fim da sua história e estrada, eis que… wooooow! Surge, diretamente de João Pessoa, na Paraíba (isso mesmo que você leu: na capital da Paraíba) o trio Augustine Azul. Nunca tinha ouvido falar? Nem o blog zapper também, que descobriu a banda essa semana (falha nossa, assumimos) ao ler um texto sobre ela no Facebook (publicado pelo chapa Eduardo Roberto). Bão, e o que é o Augustine Azul? Simplesmente o MELHOR trio instrumental que estas linhas zappers escutam no rock brasileiro em muitos anos. A banda (formada pelo guitarrista João Yor, pelo baixista Jonathan Beltrão e pelo baterista Edgard Moreira) surgiu em 2014 e lançou até o momento um EP e este absurdamente incrível cd intitulado “Lombramorfose”, com seis faixas longas e menos de meia hora de som. Mas o suficiente para o grupo demonstrar a MONSTRUOSA qualidade sonora que possui, com a trinca compondo peças instrumentais que trafegam harmoniosa e espetacularmente por stoner rock, prog rock (sem a chatice habitual que contamina o gênero) e algo de psicodelia. E salta aos ouvidos de quem ouve as faixas como a cama sonora é construída com perfeição absoluta, com espaços para improvisos e solos tanto da guitarra como do baixo, com uma fluidez sonora impressionante e que não cansa jamais quem escuta. Pelo contrário: a cada nova audição o prazer de ouvir a guitarra tecendo melodias, riffs e solos envolventes e a seção rítmica dando um show à parte, só aumenta. É como se o três músicos do Augustine estivessem em uma jam interminável, complexa mas que possui foco e conexão definida entre os instrumentos – algo que faltava por vezes ao já veterano (e quase extinto) Macaco Bong, que também possuía músicos excelentes mas cujas músicas por vezes pareciam perder o controle melódico e harmônico, para se transformar em uma maçaroca sônica movida a maconha, rsrs. Resumindo: “Lombramorfose” (que já saiu nos EUA pelo selo More Fuzz Records) já tem o voto do blog para DISCO DO ANO no rock nacional em 2016. Podem acreditar: um MONSTRO (no melhor sentido do termo) está nascendo na Paraíba. E ele se chama Augustine Azul, sendo que você pode saber mais sobre a trinca aqui: https://www.facebook.com/AugustineAzul/. E ouvir o disco inteiro aqui: http://augustineazul.bandcamp.com/album/lombramorfose.

IMAGEMAUGUSTINEAZULSP

O trio rock instrumental paraibano Augustine Azul (acima) e a capa do seu primeiro álbum (abaixo): stoner prog rock fodão e já sério candidato a melhor disco do rock BR em 2016

CAPAAUGUSTINEAZIL16

  • Baladas no finde: ufa! Blogão tendo o postão finalmente encerrado, néan. E na boa, o finde tá meio assim com poucas opções realmente bacanas pra você curtir no circuito alternativo de Sampalândia. De modos que hoje, sextona em si, a pedida é ir tomar umas brejas no Outs Pub (na rua Augusta, colado no clube Outs), antes de cair no open bar em si do próprio Outs, rsrs.///Sabadão? Tem a estréia da festa Interzone Rock Party, comandada pelo queridão agitador cultural Adriano Pacianotto. Vão rolar shows ao vivo e DJ sets bacanudas, tudo lá na rua Padre João, 522, Penha, zona leste de Sampa. Bora lá! E é isso, sendo que na semana que vem o sabadão vai ferver com gigs do velho Metrô e do trio blues/rock do jornalista e músico Ayrton Mugnaini. Mas isso contamos melhor na… semana que vem, rsrs.

IMAGEMCARTAZPACIANOTTO16

 

FIM, ENFIM

E demorou dessa vez, fato. Mas é que o postão lindão e bombator (mais de quatrocentos likes!) sobre o Ira! ficou tão bacana que resolvemos deixar ele o mês inteiro de agosto no ar. Então colaê na semana que vem novamente que aí deverá ter novo post no blog campeão em cultura pop.

Até lá!

 

(ampliado, atualizado e finalizado por Finatti em 19/8/2016, às 18hs.)